Capela Sagrado Coração de Jesus

Matriz Sagrada Família


História e Memória de uma Comunidade Hospitalar

História e memória, a despeito de suas imbricações profundas, constituem duas vias distintas de acesso ao passado. Tanto num caminho quanto em outro, contudo, o passado não pode ser meramente resgatado ou trazido a lume, em sua integridade original, das profundezas do obscurantismo ou do esquecimento, “como a criança que caiu num poço e não consegue subir à superfície sem o auxílio providencial. A capela foi erguida ao lado do primeiro bloco do Hospital São Caetano, inaugurado em julho de 1954. A pedra fundamental do templo foi lançada em janeiro de 1955. Em fevereiro de 1957, já construída, a capela foi dedicada ao Sagrado Coração de Jesus, sob as bênçãos de Dom Jorge Marcos de Oliveira, e oficialmente aberta ao povo dos bombeiros”, ou “como o arqueólogo (que) desenterra os objetos retidos no solo”, nas expressões do historiador Ulpiano Bezerra de Meneses.

Diferentemente da memória, a história estabelece, logo de início, um distanciamento entre o investigador e o objeto investigado mesmo que o assunto abordado tenha alguma relação com a vida do historiador. É preciso dizer que nessa última condição se encontra o caso da pesquisa que resultou no presente artigo. Apesar do valor sentimental que para mim carrega o mencionado objeto de estudo a Capela do Hospital São Caetano, comunidade da qual faço parte desde a infância, há cerca de 17 anos , procurar-se-á aqui abordá-lo com o rigor exigido pela pesquisa histórica, que não abre mão de diferentes fontes e testemunhos sobre o passado. Sobre os primeiros tempos daquela capela, o testemunho pessoal deste historiador, como é óbvio, nada poderia acrescentar. Sobre os últimos 17 anos, entretanto, e especialmente sobre acontecimentos mais recentes que levaram ao fechamento do hospital a que se liga a capela, não me furtarei a registrar algumas impressões de cunho pessoal.

Algumas vozes, além da minha própria, fizeram-se ouvir para fazer lampejar, como momentos significativos de tantas trajetórias individuais, uma pequena parte do emaranhado de experiências relacionadas à existência de uma comunidade religiosa, em um hospital que tão profundamente marcara (e marca) a história da cidade de São Caetano do Sul.

Por último, é necessário que se faça uma observação a respeito da Capela do Hospital como objeto deste artigo. O referido templo nada tem de inestimável valor artístico ou cultural, excetuando-se a sua inegável relevância para a história da cidade. Não se trata de atentar para a construção e as transformações de um edifício; tijolos, telhas, concreto, vitrais, altar, imagens, objetos e ornamentos falam do templo material, mas também, e sobretudo, das relações sociais de que ele é originário, que o sustêm e que definem sua existência enquanto tal. Antes de fazer história (e memória) de uma capela, faz-se história de uma comunidade religiosa, erigida em torno da Capela do Hospital e intrinsecamente ligada à trajetória das Irmãs Clarissas Franciscanas na cidade de São Caetano. A força dessa comunidade é tão grande que, passados 60 anos de sua fundação, ela continua sendo um marco de luta, característica constitutiva das origens da Sociedade Beneficente Hospitalar São Caetano, e resistência, dado que a capela (como comunidade) sobreviveu ao fechamento do hospital e a todo tipo de força que já quis levar à sua extinção.

Prelúdio: a ereção da capela – Em 1946, as páginas do Jornal de São Caetano, lançado naquele mesmo ano, semearam as bases de uma benemérita e, afinal, vitoriosa campanha para a construção de um hospital no então subdistrito de Santo André. Mário Porfírio Rodrigues e Walter Thomé, fundadores do jornal, percorreram as ruas de São Caetano a fim de indagar quais eram as prioridades da população para a sua localidade. O objetivo declarado daquele periódico era tornar o subdistrito um município independente. A pesquisa de opinião, no entanto, revelou pelo que mais ansiavam os moradores naquele contexto de carências estruturais: uma casa de saúde que atendesse, principalmente, os mais necessitados. Na medida em que encampou essa reivindicação, o Jornal de São Caetano conferiu legitimidade ao mote da autonomia, que foi enfim conquistada após plebiscito realizado em 24 de outubro de 1948.

Com a criação, em 7 de dezembro de 1946, da Sociedade Beneficente Hospitalar São Caetano (SBHSC), tiveram início os incessantes trabalhos de arrecadação de fundos para a construção da casa de saúde. Ergueu-se o Hospital São Caetano à base de sucessivas campanhas, chás beneficentes, shows, bailes, eventos que contavam com o apoio e a adesão da população local, além das subscrições de particulares. Nos primeiros estatutos da Sociedade Beneficente revelava-se o seu intuito, verdadeiramente louvável, de fornecer, “gratuita e indistintamente, os benefícios de assistência médico-hospitalar-odontológica-farmacêutica e maternidade”, visando especialmente socorrer os “desvalidos” e as “classes menos abastadas deste distrito” (depois município).

Esse caráter filantrópico do Hospital São Caetano, em seus primeiros tempos, encontrou seu complemento natural na vinda das Irmãs Clarissas Franciscanas para o âmbito de suas atividades. O presidente da Sociedade Beneficente Hospitalar afirmou, em entrevista publicada no Jornal de São Caetano de 15 de dezembro de 1954, que as Irmãs Clarissas estariam em atividade no Hospital São Caetano a partir do dia 7 de janeiro de 1955, dentro, portanto, de 20 dias. O mesmo artigo do jornal alegava que “o assunto já havia sido amplamente debatido em reunião do Conselho da SBHSC, tendo os defensores dessa ideia lido uma carta do padre Ézio Gislimberti em que prestava  esclarecimentos defendendo essa ideia”. Graças à sua atuação no campo educacional desde a fundação do Instituto Nossa Senhora da Glória (1953), a Congregação das Irmãs Clarissas tornou-se conhecida e admirada em São Caetano, o que motivou o convite da administração do hospital. Desde 7 de janeiro as irmãs Julieta e Rosália, auxiliadas por outras, cujos nomes não devem ser esquecidos, estavam à testa da casa de saúde construída no alto da Rua Espírito Santo. Elas então passariam a atuar em diversas frentes, revezando as equipes religiosas nos setores de supervisão administrativa, enfermagem e pastoral dos enfermos. Impossível dissociar as atividades desenvolvidas pelas Irmãs Clarissas, no Hospital São Caetano, de seus aspectos espirituais; esse foi o pressuposto da aceitação de uma comunidade religiosa católica no seio do hospital.

Todas as comunidades religiosas, ordens ou congregações, como “institutos de vida religiosa” ou “consagrada”, exigem espaços para o culto e o exercício de suas práticas espirituais, ao redor das quais se organiza toda a vida da comunidade. Como decorrência do estabelecimento das Irmãs Clarissas, a construção de uma capela anexa ao hospital foi uma necessidade quase obrigatória e imediata. Já em 23 de dezembro de 1954, antes mesmo que as Clarissas começassem a trabalhar no hospital, uma coluna no Jornal de São Caetano participava a “Construção da capela do Hospital de S. Caetano”; e informava ao público leitor que no dia 2 do próximo mês, um domingo, às 10h30, ocorreriam as solenidades de lançamento de sua pedra fundamental na Rua Espírito Santo, nº 277, com a presença de Dom Jorge Marcos de Oliveira, primeiro bispo da Diocese de Santo André. A diretoria do hospital, em nota publicada no jornal, convidou todo o povo para assistir a essas festividades.

O evento acabou não ocorrendo no dia marcado, pois “chuvas implacáveis” caíram sobre São Caetano desde o início da manhã de 2 de janeiro, impedindo a realização da solene missa campal, que foi remarcada para o dia 16 e contaria, novamente, “com a presença honrosa de Dom Jorge”. Mas a primeira missa no Hospital São Caetano foi rezada alguns dias antes da solenidade de lançamento da pedra fundamental. Um dos cômodos foi utilizado para a instalação de uma capela provisória. No dia 11 de janeiro, uma terça-feira, às 5h30 da manhã, foi celebrada, pelo padre Ézio Gislimberti o então vigário da Igreja Matriz Sagrada Família, à qual a Capela do Hospital estaria ligada desde sua origem, a primeira missa nas dependências da nova casa de saúde. Nesse mesmo dia, à tarde, teve lugar “uma reunião de senhoras da sociedade sancaetanense”, presidida por irmã Julieta, com o objetivo de organizar uma campanha para adquirir os aparatos (tapetes, objetos, ornamentos) necessários ao uso da capela. No mês seguinte, o mesmo jornal noticiava que as esposas dos rotarianos, em visita ao hospital, efetuaram a entrega à Irmã Julieta, superintendente do Hospital, de um cheque destinado a contribuir para a aquisição de pertences da Capela que está em construção na referida Casa de Saúde. A entregue (sic) do cheque foi feita pela sra. Maria José de Lima Durán, esposa do presidente do Rotary Club local.

Assim como o hospital, a capela foi construída, assim como continuamente sustentada e ornamentada, graças aos esforços despendidos pelo povo da cidade que se unira à causa do hospital e, posteriormente, pelo conjunto de fiéis que se tornariam frequentadores assíduos dessa capela. Essa fisionomia solidária do processo de construção da capela foi enfatizada por Helda Thereza Castello Campanella, mais conhecida como dona Zinha, que a descreveu com cores sentimentais e saudosistas, próprias da relação afetiva que ela tinha com o Hospital São Caetano:

A capela, por exemplo, foi doado o terreno, mas a construção foi (feita com) esmola de um, esmola de outro, quem dava 10 tijolos, quem dava 20, quem dava uma dúzia de tijolos, foi tudo feito assim. Então, isso é uma criança que a gente criou. Para mim, o Hospital São Caetano foi uma criança que a gente criou.

Em julho de 1955, as obras da capela ainda não se tinham iniciado, por causa de dificuldades financeiras; o que, entretanto, não vinha prejudicando totalmente a celebração de cerimônias religiosas, as quais eram realizadas em determinada dependência interna do hospital, onde, quinzenalmente, “por confortadora gentileza do Reverendíssimo Padre Ézio”, era “possível às Irmãs e aos nossos doentes assistirem à Santa Missa”.

A construção da Capela do Hospital São Caetano teve de fato início no ano seguinte. Em número de 28 de janeiro de 1956, a diretoria da Sociedade Beneficente fez publicar no Jornal de São Caetano um edital de concorrência, a fim de receber propostas para execução dos serviços de mão de obra da construção da capela e clausura do hospital. Estipuladas as condições, foi estabelecido um prazo para o recebimento das propostas. O resultado da concorrência foi apresentado pela diretoria em 12 de março e publicado no jornal de 17 do mesmo mês. Deliberou-se que ficariam encarregados da construção da capela e clausura, em primeiro lugar (conforme ordem de classificação), o engenheiro José Lorenzini (que estabelecera preço de Cr$ 265.000,00) e, em segundo lugar, a firma Gonzalo G. Gandara (Cr$ 454.597,00). Lorenzini tomou a dianteira, projetando e acompanhando as obras da Capela do Hospital, uma das primeiras realizações de sua carreira.

A capela ficou em construção durante o ano de 1956 e o prelúdio de sua história encerra-se no princípio de 1957, quando foi marcada a solene “Benção da Capela Sagrado Coração de Jesus do Hospital de São Caetano”. O registro dessa dedicação foi materializado pelo coração de gesso encimando o arco que separa o presbitério (espaço elevado onde fica o altar) da nave (o “corpo da igreja”, onde ficam os fiéis). Naquele 1957, a Comissão Feminina e a diretoria da Sociedade Beneficente convidaram os conselheiros, sócios e todo o povo da cidade para participarem da missa que seria realizada no dia 28 de fevereiro, às 19 horas, a ser presidida pelo Bispo Dom Jorge.

A capela em atividade: tempo da história, tempo da memória – Erguido o templo físico de sua comunidade, as Irmãs Clarissas passaram a organizar a vida religiosa em torno da capela, que, em grande medida, existia em função do hospital e da necessidade de atender os enfermos e seus familiares. As irmãs residiam no hospital e suas vidas orbitavam ao redor do atendimento material e espiritual dos doentes. Na parte espiritual, além das celebrações religiosas, elas o faziam, nas palavras da irmã Lydia Lopes de Assis, “ouvindo e confortando os enfermos, aconselhando os familiares, tornando o silêncio dos quartos em ambiente de paz, alegria e conforto para o espírito. Desde o início essa atitude foi de uma validade extraordinária, gerou respeito e a ordem em toda a casa”. Em 1978, a fim de favorecer as condições de vida religiosa e dar maior colaboração nas pastorais paroquiais (cursos, catequese, reuniões etc.), um grupo de irmãs passou a residir fora do hospital. Foi assim constituída a Comunidade São José, que atualmente se encontra (desde 1994) na Rua Archinto Ferrari, nº 55. Eram como que duas comunidades, a de “dentro” e a de “fora” do hospital, mas ambas atuando na enfermagem e na pastoral da saúde, e tendo um centro religioso comum: a Capela do Sagrado Coração de Jesus – hoje também designada, pelas irmãs da comunidade, de Capela da Imaculada Conceição do Hospital São Caetano.

Nos idos da década de 1980, conforme registra o “livro de crônicas” das Irmãs Clarissas, a capela tinha uma rotina intensa. Missas diárias às 6h15, exceto aos domingos, eram celebradas pelos padres da Matriz Sagrada Família. Missas vespertinas já aconteciam aos sábados, como até hoje, e muitas outras eram celebradas em ocasiões especiais: batizados, bodas, aniversários, sobretudo de funcionários da casa de saúde, festividades do calendário litúrgico e do próprio hospital. Antes disso, em fins da década de 1950, o Jornal de São Caetano não deixava de publicar notas em que se convidava o povo para “Missa em Ação de Graças na Capela do Hospital”, quando do aniversário da Sociedade Beneficente, em louvor ao padroeiro São Caetano di Thiène ou, ainda, pelo término da gestão de uma diretoria e o início de outra. É natural que essa rotina sofresse modificações ao longo do tempo e que, em tempos mais recentes, as administrações do hospital paulatinamente se distanciassem desses compromissos religiosos, que eram também parte de suas obrigações para com a sociedade da época.

A comunidade religiosa da capela nasceu e cresceu sob o influxo do trabalho incessante desenvolvido pelas irmãs no Hospital São Caetano; e a comunidade fincou raízes, de tal modo que passou a ter um corpo per- manente de fiéis, entre funcionários, voluntários e moradores das cercanias que participavam, assiduamente, das celebrações. O coral da capela, Grupo de Canto São Francisco, teve início com funcionários e irmãs; é o coral que até hoje anima as missas lá realiza- das. Há vários exemplos de sintonia e intercâmbio entre a capela e o trabalho junto ao hospital nas crônicas das Clarissas. Intensamente ocupada, a capela tinha uma programação regular e atividades que variavam a cada mês, a cada semana. Nessa capela floresceu, inclusive, uma vocação à vida sacerdotal como a do padre Roberto Alves Marangon, que por doze anos (1999-2011) foi pároco da Paróquia São Bento:

A Capela do Hospital São Caetano foi sempre uma referência. Ali vivenciamos uma comunidade de fé que deu sentido à ação pastoral. Era local de muitas visitas. Os doentes e familiares gostavam de visitar a capela. Ali se realizaram batizados, casamentos, missas de formatura, dias especiais. O processo de humanização era o ponto fundamental a ser focado. A capela foi o espaço onde muitos se encontraram, médicos, enfermeiros e tantos outros profissionais. Lembro com carinho de muitos médicos participando ativamente, no coral, nas festas. Foi também um ambiente de discernimento vocacional. Posso dizer, com certeza, que foi ali o local do meu amadurecimento vocacional.

Esse espírito religioso que caracterizou o funcionamento do Hospital São Caetano desde  seu nascedouro perdurou enquanto as Irmãs Clarissas estiveram envolvidas, de maneira global, nas atividades dessa unidade hospitalar. Muitos padres já passaram pela capela, que foi sempre atendida pelos sacerdotes estigmatinos da Paróquia Sagrada Família. Há poucos registros a esse respeito, entretanto, nos livros de tombo daquela paróquia. Em setembro de 1964, o padre Ézio Gislimberti escreveu que as missas na Capela do Hospital seriam feitas, cotidianamente, em vernáculo, isto é, na língua falada no país, o português. A utilização da língua vernácula em substituição ao latim nas celebrações litúrgicas foi autorizada pelo Concílio Vaticano II (1962-65). Em janeiro de 1980, época em que era vigário da Sagrada Família o padre Paulo Campo Dall’Orto, um registro curioso referente à capela: por razões “pastorais”, foram suprimidas as missas que lá aconteciam aos domingos, às 17h, e “o descontentamento dos irmãos e de seus frequentadores foi geral”. Essa simples frase é reveladora de que a Capela do Hospital, mais do que um lugar de visitas eventuais, mais do que um espaço público aberto a todos quantos desejassem, era já uma comunidade – tendo em vista o sentimento de pertencimento e as identidades compartilhadas pelos fiéis que a frequentavam. As missas dos domingos, a partir de então, seriam celebradas nas tardes dos sábados.

Alguns padres marcaram presença na capela por largo período de tempo. Padre José de Souza Primo lá celebrou missas durante 23 anos, entre 1978 e 2001. Padre Emílio Rubens Chasseraux, por mais de 40 anos, exerceu um belo e nobre trabalho de voluntariado no Hospital São Caetano, onde fazia visitas regulares aos doentes, levando uma palavra de ânimo, consolando os familiares e ministrando os sacramentos àqueles que os desejassem; sem contar a assistência, social e psicológica, que prestava aos funcionários e aos enfermos mais necessitados. Naturalmente, sua presença era constante na capela, onde celebrava missas às segundas, quartas e sextas-feiras, celebrando, ainda, as missas vespertinas dos sábados por dilatados anos. A figura carismática do padre Rubens, sua simplicidade, sua dedicação aos pobres e desvalidos, sua atuação vigorosa e incansável no hospital fizeram dele uma pessoa conhecida e admirada por (quase) todos. Seguramente, não se poderia escrever a história da capela ou do próprio Hospital São Caetano sem mencionar o que ele foi e o que ele significa não só para aquela instituição, como para tantas e distintas trajetórias individuais, inclusive para quem escreve estas linhas.

Diversos grupos de oração, movimentos e pastorais já utilizaram (e utilizam) o espaço da capela. Durante vários anos, muitas crianças da cidade foram preparadas para receber, nessa capela, a primeira Eucaristia, após encontros semanais ministrados por Maria José Galvani, mais conhecida como Zezé, e, antes dela, pela ilustre irmã Julieta Ramos. As legionárias do Praesidium Nossa Senhora de Lourdes, o qual surgiu, em 1974, a partir do primeiro núcleo da Legião de Maria da cidade de São Caetano, até hoje fazem seus encontros numa sala atrás da capela, o que já acontece há 43 anos, em todas as segundas-feiras. Em meados da década de 1980, um grupo de jovens, denominado Luz de Deus, lá se reunia nas noites dos sábados. Vicente Rodrigues, que atualmente é coordenador do grupo de oração da Paróquia Santo Antônio e pregador na Diocese de Santo André, narra que o “Luz de Deus” foi o primeiro grupo da RCC (Renovação Carismática Católica) de São Caetano do Sul, contando, então, com o apoio do padre Paulo Campo Dall’Orto, em uma época na qual o movimento carismático era perseguido por várias alas da Igreja.

A Capela do Hospital São Caetano, além de ter acolhido a resistência (chegando, inclusive, a hospedar o padre Rubens nos tempos em que ele foi perseguido pelos agentes da ditadura, os quais confundiam o seu trabalho social com atuação político-partidária), foi ela mesma um espaço de resistência. Em 2006, as Irmãs Clarissas, depois de cinco décadas de trabalho, deixaram o hospital. Elas e o padre Rubens. Não o deixaram de próprio alvitre, mas foram, em realidade, expulsas daquela casa de saúde. Nessa época foram retiradas as imagens, crucifixos e todos os demais sinais religiosos do hospital  e é bom ressaltar que alguns foram, literalmente, jogados no lixo. Poderia ser somente uma tentativa de aparente laicização das atividades do hospital, não fosse o modo agressivo e desrespeitoso com que essa mudança foi efetuada. No entanto, não foi isso que ocorreu. O hospital apenas sobrevivia, pois já se encontrava em estado falimentar. Sucessivas administrações onerosas e perdulárias não só lhe tiraram o caráter beneficente, como dilapidaram o patrimônio que deveria pertencer ao povo de São Caetano. As irmãs foram “convidadas” a se retirar também da capela, a não exercer mais nenhuma atividade pastoral. Mas lá permaneceram, porque os fiéis não abandonaram o barco.

 

Epílogo – “Os corredores estão escuros e as salas, lacradas”. Assim se referia ao hospital uma reportagem do jornal O Estado de São Paulo, de 24 de julho de 2010.28 No dia 10 daquele mês, a direção abandonou a unidade sem dar explicações. Os pacientes que estavam internados foram recebidos por hospitais públicos da região. Mas a capela permaneceu de portas (parcialmente) abertas. As chaves estavam em poder das irmãs, e estas, aliadas a um grupo de frequentadores fiéis, impediram que a comunidade desmoronasse com o hospital. As missas continuaram sendo celebradas, regularmente, aos sábados. As orientações oficiais da Diocese de Santo André eram que as irmãs e o padre não se afastas- sem da capela; e assim eles procederam.

Sobreveio um tempo de adversidades, cuja memória é ainda viva para aqueles que o presenciaram. Após certo tempo, o fechamento do hospital afetou o funcionamento da capela; foram cortados o fornecimento de energia elétrica e o abasteci- mento de água. As missas aconteciam à luz de velas e, posteriormente, sob a luz difusa de lampiões a gás. Ainda assim, os bancos nunca estiveram vazios. O caráter aparentemente romântico desse cenário em nada condizia com a apreensão domi- nante a respeito do futuro, mais do que incerto, daquela comunidade. A sua sobrevivência perdia-se na mesma penumbra que tomava o ambiente. Sendo até então feitas às 17h30, as celebrações foram antecipadas para as 16h, a fim de se aproveitar a luz natural do dia. Para piorar o quadro, o padre Rubens encontrava-se, a essa altura, com sérias dificuldades para ficar em pé e manter-se em equilíbrio, devido a problemas de saúde. Como acólito, lembro-me de tê-lo escorado, em várias ocasiões, enquanto ele celebrava as missas. Com sérios embaraços para andar e se expressar, padre Rubens presidiu as celebrações enquanto suas forças permitiram, com uma tenacidade impressionante e comovente. Dentro em breve, aquele sacerdote, que era um dos pilares da comunidade, seria definitivamente afastado. Mas os fiéis habituais, mais uma vez, não largaram o posto.

Em 2012, o edifício do Hospital São Caetano foi tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Caetano do Sul. Dessa forma, o hospital e, por conseguinte, sua capela não poderiam ser demolidos nem terem suas estruturas alteradas. Em fevereiro daquele ano, as atividades da unidade hospitalar foram parcialmente reativadas. Na capela, os serviços de água e luz não foram mais interrompidos e os fiéis puderam respirar aliviados. Faltava apenas que o famigerado Hospital São Caetano voltasse a funcionar como nos tempos de antanho.

O sonho do hospital beneficente da Rua Espírito Santo foi reavivado neste ano de 2017. Em setembro, após revitalizadas e modernizadas, as instalações do Hospital São Caetano receberam todo o atendimento do Hospital de Emergências Albert Sabin, que passará por reformas. Neste mesmo mês, como que por uma coincidência do destino, o padre Rubens, depois de longa ausência forçada e tanto sentida, veio visitar a comunidade, em uma missa de sábado, e manifestou sua alegria em poder compartilhar esse momento com tantas pessoas queridas, na sua capela do coração. Padre Rubens é sinal vivo de uma capela que simboliza o tempo da luta e da resistência na cidade de São Caetano do Sul, graças à força de uma comunidade; luta pela manutenção de sua fé, de seu culto, de seus vínculos afetivos e laços fraternos; resistência a todos quantos já desejaram que suas portas fossem definitivamente fechadas e a comunidade, dissolvida. Completando 60 anos de atividades  ininterruptas na cidade, a Capela do Hospital São Caetano é um patrimônio – mais do que material, imaterial – da população da cidade. As missas continuam sendo celebradas todos os sábados, às 17h, pelos padres Estigmatinos da Matriz Sagrada Família. Todo o povo, ao qual sempre pertenceu essa comunidade, está convidado. (Artigo Revista Raizes n. 56 - Rodrigo Marzano Munari).


 



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